segunda-feira, 16 de maio de 2011

A dieta como instrumento para redução de peso não parece ser eficaz

A utilização de uma dieta restritiva é uma das opções terapêuticas que está presente tradicionalmente na maioria  das recomendações sobre o tratamento da obesidade.

No entanto, não existe consenso sobre que tipo de dieta deve ser proposta a um doente. Não existe sequer concordância sobre o grau de eficácia das dietas como forma de tratamento.

Um dos estudos que analisou esta questão foi publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA. 2005;293(1):43-53), em 2005.


Este estudo comparou a eficácia de quatro tipos de dieta muito populares nos estados unidos: a dieta de Atkins, a dieta de Ornish, a Zone e a dieta dos Weight Watchers. Para isso analisaram o efeito de cada uma das dietas em grupos de voluntários que foram seguidos durante um ano.

A dieta de Atkins consiste numa dieta com restrição de hidratos de carbono; a dieta Zone recomenda uma ingestão restritiva de nutrientes mas de forma equilibrada, 40% hidratos de carbono, 30% gordura e 30% proteínas; a dieta dos Weight Watchers propõe uma alimentação controlada por um sistema de pontos que conduz a uma ingestão de 1200-1600 Kcal diárias; e finalmente a dieta Ornish é uma dieta vegetariana com menos de 10% de gordura.

Este voluntários tinham, no início do estudo, um peso médio de 100 Kg, com um IMC médio de 35 (entre 27 e 42). Para obter um peso normal, estes voluntários que tinham em geral uma obesidade ligeira ou moderada, deveriam atingir um peso médio de 71 Kg, ou seja, perder 29 Kg em média.



Os resultados, após dois meses do início da dieta, mostraram uma perda de peso média de 3.6 Kg, sendo o efeito muito semelhante entre os vários tipos de dieta (Atkins -3.6 Kg / Zone -3.8 Kg / Weight Watchers -3.5 Kg / Ornish -3.6 Kg).

No entanto, o dado mais assinalável é que o peso parou de diminuir em todos os tipos de dieta a partir dessa data. Um ano após o início do estudo, os doentes tinham em média um ganho de 0.3 Kg em relação ao peso medido aos dois meses (Atkins +1.5 Kg / Zone +0.6 Kg / Weight Watchers +0.5 Kg / Ornish +0.3 Kg).

Mesmo em termos individuais, os resultados foram pouco expressivos. Apenas 25% dos doentes conseguiram uma redução de peso correspondente a pelo menos 5% do peso corporal, o que, mesmo assim, ainda ficou muito longe da redução de 29% do peso corporal necessária para atingir um peso normal.

As diferenças entre os vários tipos de dieta não foram relevantes e todas obtiveram resultados semelhantes.


Este estudo é importante uma vez que coloca claramente em causa a eficácia das dietas restritivas como forma de tratamento para a obesidade de classe I e classe II (obesidade ligeira a moderada). Além disso mostra que os vários tipos de dieta têm efeito praticamente igual, não se concretizando as promessas "milagrosas" tantas vezes invocadas.

Este estudo pode ser encontrado no JAMA

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Public Citizen solicita remoção do mercado do Orlistat

O Public Citizen é uma organização de consumidores americana.

Esta organização emitiu uma petição à FDA americana, solicitando a remoção do mercado do orlistat (Xenical ou Alli). Este medicamento é o único actualmente aprovado nos EUA para o tratamento médico da obesidade.

O orlistat funciona bloqueando a acção dos enzimas que digerem a gordura ingerida no interior do intestino. Desta forma a gordura não é convertida em ácidos gordos e, como tal, é menos absorvida e é excretada de forma não digerida nas fezes. Os efeitos acessórios principais que os doentes sofrem são diarreia com fezes gordurosas e flatulência, podendo resultar mesmo em incontinência. 

Além destes problemas, segundo esta organização, "o orlistat expõe os doentes que o ingerem a riscos graves que ultrapassam largamente os seus eventuais benefícios.

Os riscos mais sérios incluem: doença hepática grave que pode conduzir a insuficiência hepática e necessidade de transplante hepático, pancreatite aguda que pode ser mortal, e insuficiência renal causada por litíase renal."

Ainda segundo esta organização "o orlistat é um fármaco utilizado no tratamento do excesso de peso e da obesidade. Infelizmente o seu benefício clínico é muito reduzido e tem potencial para lesar o rim, o fígado e o pâncreas. "

Mesmos nos estudos que apoiaram a sua comercialização, o efeito deste fármaco era apenas de -2.4 Kg ao fim de um ano, resultado manifestamente insuficiente para justificar o seu custo e eventual toxicidade.

Acompanhando esta baixa eficácia deste fármaco, a prescrição deste fármaco reduziu-se drasticamente nos EUA de 2.6 milhões de vezes em 2000 para apenas 110.000 prescriçoes em 2010.

Aguarda-se agora a decisão da FDA, mas é possível que, atendendo ao progressivo abandono deste medicamento por parte dos médicos, a FDA permita ao mercado resolver este problema de uma forma espontânea.

Ligação para a petição: Petição do PublicCitizen
Ligação para o site do Public Citizen

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A cirurgia bariátrica melhora a memória

A evidência científica mostra que a obesidade compromete as funções neuro-cognitivas, tais como a memória. Estes dados não são surpreendentes uma vez que as doenças crónicas associadas à obesidade, como a diabetes e a hipertensão, também estão relacionadas com disfunção cognitiva.

A questão mais relevante é saber se esse compromisso da memória é resolúvel com a cirurgia bariátrica.

Dali - The Persistence of Memory


Para estudar este assunto, investigadores de vários centros norte-americanos analisaram a evolução das capacidades de memória de um grupo de doentes sujeitos a cirurgia bariátrica. Esta avaliação foi realizada antes da cirurgia e 12 semanas após a intervenção cirúrgica. Além disso, compararam os resultados com um grupo de doentes obesos não operados.

Antes da cirurgia, os doentes obesos tinham um desempenho nestes testes cognitivos, que avaliaram a capacidade de memória, inferiores ao da população não obesa.

12 semanas após a cirurgia, os doentes obesos operados obtiveram uma melhoria no seu desempenho, ao contrário dos doentes obesos não operados, que tiveram resultados nos testes que revelaram degradação das capacidades cognitivas.

Como resultado deste estudo, os autores concluem que o compromisso cognitivo (avaliado pela capacidade de memória) é um problema frequente nos doentes obesos, mas que é reversível com o tratamento da obesidade.

Este estudo pode ser consultado na revista Surgery of Obesity and Related Diseases

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Campanha inglesa anti-obesidade

O governo inglês lançou uma campanha anti-obesidade que designou Change4Life.







Integrada nesta campanha, a Pepsi Co lançou a sua própria iniciativa que baptizou Play4Life.

 A esta campanha a Pepsi Co associou os nomes de Thierry Henry, jogador do Barcelona e da selecção francesa, e  Frank Lampard, jogador do Chelsea e da selecção inglesa.










Ambos afirmam "Ajude os seus filhos a manter-se aptos fisicamente. Assegure que praticam actividade física 60 minutos por dia."








segunda-feira, 18 de abril de 2011

A obesidade no início da gravidez aumenta o risco de morte neo-natal

O impacto negativo que a obesidade nas fases iniciais da gravidez tem na saúde do recém-nascido já é conhecido. No entanto, nem todos estes efeito prejudiciais são inteiramente claros.

No sentido de esclarecer melhor as consequências da obesidade nesta fase da gravidez, foi realizado um estudo, na região Norte de Inglaterra, que pretendeu relacionar obesidade (IMC >30) com risco de morte fetal e neo-natal, excluindo as malformações congénitas e os efeitos da gravidez gestacional, que são problemas já bem conhecidos.

As gravidezes seguidas em cinco hospitais ingleses, no període de 2003-2005 foram analisadas de um ponto de vista estatístico. Foram contabilizadas as mortes fetais (>20 semanas de gestação) e as mortes dos recém-nascidos durante o primeiro ano de vida, e analisadas de acordo com o IMC da mãe (<18.5, 18.5-25, 25-30, >30).

Os resultados mostraram que as mulheres obesas tiveram um risco de morte fetal ou no primeiro ano aproximadamente o dobro das mulheres obesas (2.3 e 1.9 de risco relativo respectivamente).

A análise estatística contínua revelou uma relação de formato em V, com o risco mais baixo no IMC 23 e aumento contínuo do risco para valores aumentados do IMC.

As razões para este aumento de mortalidade fetal e dos recém-nascidos até ao primeiro ano de vida encontrado nas mulheres obesas, não foram estabelecidas.

O estudo conclui que a obesidade no início da gravidez está associado de uma forma significativa com a morte fetal e a morte do recém-nascido no primeiro ano de vida. Esta associação é independente das já conhecidas implicações da obesidade no aparecimento de malformações congénitas e na diabetes gestacional.

Pode encontrar este trabalho na Revista Human Reproduction

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Estratégias para perder peso sem cirurgia

O Registo Nacional de Controlo de Peso americano -  National Weight Control Registry (NWCR) - foi fundado em 1994 por Rena Wing, Ph.D.,  director da Weight Control and Diabetes Research Center da Warren Alpert Medical School of Brown University e por James O. Hill, Ph.D., director do Center for Human Nutrition da University of Colorado.

O objectivo foi responder a duas importantes questões sobre controlo de peso: 1)Existem pessoas que conseguem manter uma perda de peso substancial? 2) Quais são as características e estratégias que ajudaram estes indivíduos a atingir este objectivo?

Para participar neste registo, os voluntários têm de ter conseguido perder um minimo de 14 Kg e manter essa perda durante 1 ano.

A experiência deste registo permite sugerir sete componentes que, no seu conjunto, são eficazes para perder peso e manter essa perda.

1. Ser activo. A maior parte dos participantes gasta mais de 2000Kcal/semana. Isto equivale a 200 minutos de actividade física moderada a intensa por semana. Aproximadamente uma maratona por semana.

2. Desligar a televisão. 63 % dos participantes dispendem menos de 10 horas semanais a ver televisão.

3. Praticar uma dieta com restrição de calorias e de gorduras. A média de ingestão de calorias das pessoas registadas no NWCR é de 1,380 calorias por dia, e menos de 30% dessas calorias são gordura.

4. Manter a dieta consistente. Resistir à vontade de abusar nos feriados, fins-de-semana e férias. É preciso manter uma dieta regular.


5. Não fugir ao pequeno-almoço. A maior parte dos membros do NWCR comem pequeno-almoço. Isto ajuda a controlar a fome e evitar comer demais ao longo do dia.

6. Mostrar capacidade de sacrifício. Os membros exercem um grande controlo sobre os seus hábitos de alimentação, e raramente comem demais.

7. Manter registo do progresso. Pesar pelo menos uma vez por dia e registar o que se come diariamente é essencial.


Segundo o co-fundador, Dr Hill, "Manter a perda de peso depende de manter ao longo dos anos um estilo de vida saudável de acordo com o praticado pelos membros do NWCR".

 Trabalho original: THE NATIONAL WEIGHT CONTROL REGISTRY: A Study of "Successful Losers"

terça-feira, 12 de abril de 2011

A diabetes aumenta o risco de cancro

Um estudo do National Institutes of Health americano ( NIH-AARP Diet and Health Study), apresentado em Orlando - Florida em Abril, no AACR 102nd Annual Meeting 2011, revelou que a diabetes está associada a um aumento do risco de aparecimento de vários tipos de cancro.

Os autores desenvolveram um estudo prospectivo que envolveu 500.000 pessoas, entre os 50 e os 71 anos de idade. Estas pessoas foram seguidas durante 11 anos para avaliar o efeito que a dieta, estilo de vida, actividade física e presença ou não de diabetes, tiveram no aparecimento de cancro.

Verificaram que a mortalidade foi 11% superior nas mulheres diabéticas do que nas mulheres sem diabetes. Nos homens o aumento de mortalidade causado pela diabetes foi ainda maior: 17%.

Em relação ao tipo de tumor, a diabetes esteve associada a um aumento dos tumores do colon, recto e fígado em homens e mulheres. No caso dos homens também o risco de cancro do pâncreas e da bexiga estiveram aumentados. Nas mulheres o efeito da diabetes foi sentido ainda nos tumores do estomâgo, ânus e endométrio.

domingo, 10 de abril de 2011

Três refeições diárias ricas em proteínas parece ser a melhor forma de ter menos fome

A sensação de fome conduz à ingestão de maior quantidade de alimentos. Neste sentido, mecanismos para diminuir essa sensação de fome poderão ser úteis para ajudar a controlar o peso e até para ajudar a diminui-lo.

A prática de um maior ou menor número de refeições diárias tem sido estudada para entender o seu efeito na sensação de fome e nas calorias ingeridas.

O conceito tradicional tem sido de que uma mesma quantidade de calorias diárias divididas por um número maior de refeições (ou seja, refeições mais pequenas e em maior número) ajuda a controlar a fome e, como consequência disso, pode ajudar a controlar o peso.

Este conceito derivou da verificação de que os doentes obesos em geral referem fazer menos refeições diárias do que os não obesos. Este conceito, no entanto, tem sido posto em causa, uma vez que os obesos, quando interrogados sobre os seus hábitos alimentares, geralmente têm uma tendência a subestimar a quantidade de alimentos que na realidade ingerem e, além disso, têm uma tendência a ignorar as pequenas refeições intercalares que praticam.

Para estudar esta problemática, um grupo de investigadores estudou o efeito do teor em proteínas e do numero de refeições no apetite e saciedade durante uma dieta restritiva.

Para isso utilizaram um grupo de homens no decurso de uma dieta restritiva, e compararam os que utilizaram uma dieta rica em proteínas (25%) com os que ingeriram uma dieta com quantidade normal de proteínas (14%). Compararam ainda os que dividiam a comida diária em 6 refeições com aqueles que a dividiam apenas por 3 refeições.

Analisaram a fome, o desejo de comer, a preocupação com pensamentos sobre comida, a saciedade durante o dia e o desejo de comer durante a noite.

Os resultados mostraram que os individuos que praticavam uma dieta rica em proteínas sentiam-se mais saciados durante o dia e menos desejo nocturno de comer. Também tinham menos pensamentos sobre comida. Os outros aspectos estudados foram iguais nos dois grupos.

Comparando o que sentiram os individuos que realizaram 3 refeições diárias com aqueles que realizaram 6 refeiçoes, praticamente não houve diferenças. A única diferença foi que nos doentes que ingeriram maior quantidade de proteínas, foram os que utilizaram apenas 3 refeições diárias os que sentiram menos fome durante a noite.

Este estudo, publicado na revista Obesity em Abril de 2011, põe em causa os princípios que faziam recomendar a divisão da comida a ingerir num determinado dia, por um número maior de refeições. A confirmar-se estes resultados, parece ser o teor proteico e não o número de refeições que ajuda a obter uma sensação de saciedade.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Orientações para cirurgia de obesidade na Alemanha

A Sociedade Alemã de Cirurgia emitiu as suas linhas de orientação sobre cirurgia de obesidade.

A obesidade na Alemanha tem vindo a aumentar constantemente. A obesidade está associada a numerosas outras doenças como a resistência à insulina, a diabetes tipo 2, dislipidémia, hipertensão, litíase biliar, certas formas de cancro, refluxo gastro-esofágico, esteatose hepática, doenças articulares, apneia do sono e outras. A diminuição de esperança de vida causada pela obesidade grave pode atingir os 20 anos de vida a menos.

A eficácia da cirurgia de obesidade tem sido confirmada em inúmeros trabalhos, pelo que a selecção dos doentes a operar é cada vez mais importante.

Estas recomendações alargam as indicações para cirurgia, eliminam restrições relativas à idade e a maior parte das contra-indicações.

Segundo este documento:
- A cirurgia bariátrica está indicada em doentes com IMC > 40, após uma tentativa de tratamento conservador ineficaz ou quando essa tentativa parece inútil.
- Doentes com IMC entre 35 e 40, com uma doença associada à obesidade, também são candidatos a cirurgia após uma tentativa de tratamento conservador ineficaz ou quando essa tentativa parece inútil.
- A cirurgia também pode ser considerada em doentes com diabetes tipo 2 e um IMC entre 30 e 35.
- A idade mais avançada (>65 anos) não constitui contra-indicação para cirurgia, se o estado geral de saúde for aceitável.
- A idade fértil não é uma contra-indicação para a obesidade.
- Em adolescentes, após tentativas repetidas de modalidades terapêuticas conservadoras sem resultado, pode ser equacionada a opção cirúrgica.
- Algumas doenças e condições socio-psicológicas eram consideradas contra-indicação no passado. No entanto, se essas condições podem ser estabilizadas, os doentes podem ter indicação cirúrgica para tratar a sua obesidade.

Segundo este documento, o alargamento das indicações para cirurgia de obesidade além das que já são tradicionais, reesulta dos resultados postoperatórios impressionantes que a cirurgia obtém.

Neste sentido, estas recomendações passam a admitir tratamento cirúrgico abaixo dum IMC de 35 nos doentes diabéticos, eliminam os limites de idade, e consideram mesmo que as tentativas de tratamento não círúrgico são dispensáveis se for entendido que são fúteis para um doente específico.

O documento completo pode ser encontrado no International Journal of Colorectal Disease